A Europa nas ruas, a Ásia em armas: dois conflitos que correm em paralelo

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No mesmo fim de semana, duas coisas aconteceram em pontos opostos do mapa, e raramente são lidas em conjunto.

Em França, 320 mil pessoas saíram à rua no sábado, 31 de outubro, no terceiro fim de semana consecutivo de protestos. Em Itália, uma greve geral levou trabalhadores e estudantes a mais de 40 cidades. Na Alemanha, manifestações em 34 cidades. Em Portugal, acampamentos desmantelados.

Na Coreia do Norte, Kim Jong Un pediu um “exército mais forte” e uma “revolução militar ao estilo coreano”, e no dia seguinte visitou a China pela nova ponte sobre o rio Tumen.

São duas crises diferentes, com causas diferentes. Mas ambas dizem a mesma coisa sobre o momento: as estruturas que organizavam o mundo desde 2022 estão a ser reorganizadas por dentro.

O que está a acontecer na Europa, em números

A vaga de protestos começou em França e alastrou. Vale olhar para a cronologia, porque a progressão é o dado mais revelador.

A 17 de outubro, 550 mil pessoas nas ruas, com episódios de violência que o governo francês classificou como os piores em anos. A 24 de outubro, 410 mil. A 31 de outubro, 320 mil.

A tendência é de descida. Mas o dado importante não é esse: é que a mobilização se manteve acima das 300 mil pessoas por três fins de semana seguidos, o que em França é um patamar de contestação sustentada, não de pico isolado.

A composição também mudou. O movimento começou liderado por estudantes do ensino secundário, contra o custo de vida e o estado das escolas. Ao terceiro fim de semana, sindicatos e os Coletes Amarelos já estavam integrados. É a diferença entre uma revolta estudantil e um movimento social.

Em Paris, o Ministério do Interior contou 70 mil manifestantes. Os organizadores falam em 200 mil. O país mobilizou cerca de 70 mil polícias e gendarmes, e o ministro do Interior, Laurent Nunez, anunciou 422 detenções numa contagem preliminar.

Em Itália, a greve geral de 30 de outubro foi convocada pelo sindicato USB e juntou camionistas, taxistas e agricultores, além de estudantes. O lema que circulou nas ruas resume a pauta: “Precisamos de casas, não de bombas”. Houve confrontos menores em Turim e oito detenções em Roma.

Na Alemanha, o movimento “Gen Z Regelt” convocou protestos em 34 cidades contra o custo de vida, os cortes orçamentais e o regresso do serviço militar obrigatório. Em Frankfurt, houve lojas saqueadas. Em Berlim, Colónia e Hamburgo, a polícia usou canhões de água.

A causa económica por trás de tudo

Os protestos não são sobre um tema abstrato. Têm um número por trás.

Segundo o Eurostat, a inflação anual da zona euro subiu para 3,8% em setembro de 2026, contra 3,2% em agosto. Um ano antes, estava em 2,2%.

O detalhe que explica a rua está na decomposição. A energia teve a taxa anual mais alta, 18,8%, e sozinha acrescentou cerca de 1,7 pontos percentuais à inflação global. Os serviços subiram para 3,2%.

E há um dado que liga diretamente ao descontentamento dos mais jovens. Entre agosto de 2021 e agosto de 2026, os preços dos alimentos e bebidas não alcoólicas na União Europeia subiram 34%. A quantidade de alimentos que o salário mínimo mensal bruto permite comprar desceu 6% em Malta, 5% em Espanha e 4% em França.

Ou seja: em cinco anos, o salário mínimo francês compra menos comida do que comprava. É esta a frase que está escrita nos cartazes, mesmo quando os cartazes dizem outra coisa.

A este quadro junta-se a habitação. O Banco Central Europeu, no inquérito às expectativas dos consumidores de setembro, registou que os inquiridos entre 18 e 34 anos continuam a ser o grupo com expectativas mais pessimistas.

O que os governos podem fazer, e o que não podem

Aqui está a parte que quase nunca entra na análise, e que explica porque os protestos não param.

França é a segunda maior economia da zona euro, mas está a lidar com dívida crescente. O governo tem margem orçamental limitada para responder aos estudantes com despesa adicional. Pode negociar, pode fazer concessões pontuais, mas não pode resolver a causa.

Em Itália, a pauta dos manifestantes inclui explicitamente os gastos com defesa. E é aí que os dois lados deste artigo se tocam.

O elo que liga os protestos europeus à Ásia

A Europa está a aumentar o investimento em defesa ao mesmo tempo que os seus cidadãos protestam contra o custo de vida. Não é coincidência, é uma escolha com custo político.

Na cimeira da NATO de junho de 2025, os países membros comprometeram-se a gastar 5% do PIB anualmente até 2035. Na cimeira de julho de 2026, reafirmaram esse compromisso.

Segundo dados da própria NATO, em 2026 cinco Aliados já deverão cumprir a orientação de 3,5% para requisitos centrais de defesa, e cinco deverão cumprir a meta global de 5%.

O Banco Central Europeu, num artigo de setembro de 2026, estimou que a despesa de defesa da área do euro subiu ligeiramente para quase 1,5% do PIB em 2025.

O problema político é aritmético. Cada euro que vai para defesa é um euro que não vai para habitação, escolas ou subsídios. E quando a inflação energética está a 18,8%, o eleitor sente as duas coisas ao mesmo tempo: o Estado a gastar mais em armas e a sua conta de luz a subir.

É por isso que o cartaz italiano “casas, não bombas” não é retórica. É uma posição orçamental.

O que está a acontecer na Coreia do Norte

Do outro lado do mundo, o movimento é o inverso: não é pressão social sobre o Estado, é o Estado a concentrar poder.

A 23 de outubro, Kim Jong Un falou na Terceira Reunião de Líderes de Companhia do Exército Popular da Coreia. O objetivo declarado, segundo a agência estatal KCNA, é “construir o exército mais forte e acelerar a revolução militar ao estilo coreano”.

No dia seguinte, 24 de outubro, atravessou a nova ponte rodoviária sobre o rio Tumen e visitou a China. A ponte foi inaugurada a 7 de setembro e serve precisamente para aumentar o fluxo de mercadorias, equipamentos militares e pessoas entre os dois países.

A 2 de novembro, esta segunda-feira, Pyongyang voltou ao discurso militar. Kim Jong-sik, primeiro vice-diretor de departamento do Comité Central do Partido dos Trabalhadores, denunciou o exercício conjunto entre a Coreia do Sul e os Estados Unidos, chamado Iron Mace, como “o mais hediondo ensaio de guerra nuclear dirigido contra a RPDC”, e classificou como “imutável” o reforço das capacidades nucleares do país.

As alianças que mudaram de estatuto

Aqui está a mudança estrutural que interessa reter.

Em junho de 2024, Putin e Kim assinaram em Pyongyang um Tratado de Parceria Estratégica Integral, com um compromisso de defesa mútua. Em abril de 2026, os dois países anunciaram um acordo de defesa válido até 2031.

O envolvimento passou de declaração a prática. Estimações da Ucrânia e da Coreia do Sul indicam que a Coreia do Norte enviou entre 14 mil e 16 mil soldados de combate para a Rússia desde o final de 2024.

Em setembro de 2026, no 78.º aniversário da fundação do país, Kim agradeceu publicamente aos militares destacados na Rússia. Numa mensagem a Putin, falou de “apoio inabalável” e descreveu a guerra russa como uma “guerra sagrada pela defesa dos interesses de segurança do país e da justiça internacional”.

Em outubro, numa mensagem de aniversário a Putin, descreveu o fortalecimento da aliança como uma “opção inabalável”.

O que a Coreia do Norte recebe em troca é conhecido e relevante: experiência de combate real, moeda estrangeira e acesso a nova tecnologia militar.

Por que isto importa a quem está na Europa

Poderia parecer que estes dois assuntos não se cruzam. Cruzam-se em três pontos concretos.

Primeiro, no orçamento. O reforço militar europeu justifica-se em parte pela percepção de risco global, e essa percepção inclui a Ásia. Cada aumento de despesa em defesa é uma decisão política que enfrenta a rua.

Segundo, na energia. A inflação energética de 18,8% na zona euro não nasce do nada. Está ligada a ruturas de cadeias de abastecimento e a tensões geopolíticas, incluindo as que envolvem o Golfo e as rotas marítimas. A Ásia e o seu reposicionamento fazem parte desse xadrez.

Terceiro, na previsibilidade. Quando alianças militares mudam de estatuto, de declarativas para operacionais, o risco deixa de ser calculável. E risco não calculável encarece tudo: seguro, transporte, crédito, investimento.

O que esperar nas próximas semanas

Em França, a 5 de novembro está convocada uma jornada nacional de greves e manifestações, no setor público e privado. A Union Étudiante anunciou bloqueios de escolas e universidades na terça e na quinta. A CGT e outras centrais sindicais apoiam.

Há disrupção prevista nos comboios de alta velocidade, nos TER regionais e possivelmente nas rotas internacionais para Espanha, Itália e Suíça. O horário de perturbações será publicado até quarta-feira às 17h.

Em Espanha, os sindicatos CCOO e UGT, com organizações de habitação, anunciaram uma greve geral de 24 horas para 11 de novembro.

Na Coreia do Norte, a próxima data a acompanhar é a resposta ao exercício Iron Mace e o que sair da visita de Kim a Pequim.

Os limites desta leitura

Três ressalvas, para não transformar análise em profecia.

Primeiro, os números de manifestantes divergem. Em França, o Ministério do Interior contou 320 mil no dia 31, os organizadores falam em quase 500 mil. A diferença é normal e não é fraude de nenhum dos lados: são metodologias distintas. Uso sempre o número oficial e sinalizo o dos organizadores.

Segundo, a vaga europeia não é homogénea. As pautas variam: em França é custo de vida e escolas, em Itália inclui gastos de defesa, na Alemanha inclui o serviço militar obrigatório, em Portugal é habitação. Tratar isto como um movimento único seria simplificar demais.

Terceiro, a Coreia do Norte é uma caixa opaca. Tudo o que se sabe vem da KCNA, de serviços de inteligência estrangeiros ou de estimativas. Números de tropas enviadas à Rússia são estimativas, não contagens verificadas.

Conclusão: duas pressões, uma mesma pergunta

Na Europa, 320 mil pessoas em França, greve geral em mais de 40 cidades italianas, protestos em 34 cidades alemãs, com a inflação da zona euro a 3,8% e a energia a 18,8%. Governos com margem orçamental estreita e compromissos de defesa a subir até 5% do PIB.

Na Ásia, a Coreia do Norte a pedir um exército mais forte, a consolidar um acordo de defesa com a Rússia até 2031, a enviar milhares de soldados para a Ucrânia e a estreitar a ligação com a China através de uma ponte nova.

São duas crises com sinais opostos. Numa, a sociedade pressiona o Estado. Na outra, o Estado concentra poder.

Mas ambas respondem à mesma pergunta, e é aí que se encontram:

Quem paga a conta da segurança, e com que dinheiro?

Na Europa, essa conta aparece na conta de luz e no preço da renda. Na Ásia, aparece na parada militar e no tratado assinado.

A pergunta que fica para quem gere um negócio, em qualquer lugar:

Se o custo da energia e o custo do risco subirem juntos nos próximos seis meses, qual das duas linhas do seu orçamento cede primeiro?

Vale saber a resposta antes de o mercado a dar por si.

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